Em meio à intolerância e à censura, grupos não economizam no posicionamento político

Por Patrícia de Matos

As disputas em torno da democracia vêm ultrapassando as barreiras da arena política tradicional e assumindo formas estéticas. É o que pode ser observado em algumas produções cênicas nacionais, como a remontagem de “Roda Viva”, de Chico Buarque, pelo Teatro Oficina Uzyna Uzona, e o espetáculo “Fim”, do diretor Felipe Hirsch. Em alguns casos, a sátira incomoda a ponto de provocarem censura por parte de autoridades, como a que ocorreu em Curitiba com a peça“A Mulher Monstro”, da trupe potiguar Sem Cia de Teatro.

Não é de hoje que a política atravessa a arte. Em vários períodos da história, artistas foram agentes fundamentais de expressão de anseios da sociedade e de resistência contra a opressão do Estado. No movimento modernista de 1922, artistas fizeram a pavimentação simbólica da era moderna no país. Na ditadura de 1964, deglutiram – no sentido antropófago da palavra – o autoritarismo para realizar criações icônicas, daquelas que não podem morrer mesmo quando repreendidas.

Foi esse o caso de “Roda Viva”. Encenado pela primeira vez pelo Teatro Oficina em 1968, o espetáculo foi violentamente atacado pelo Comando de Caça aos Comunista (CCC). Em meio ao nascimento da Tropicália, surgiu, pelas mãos do diretor Zé Celso Martinez Corrêa e demais atores, “a linguagem coral no teatro brasileiro, um retorno aos ritos, aos dithyrambos gregos, à pré-lógica indígena, a descolonizar e radicalizar o fazer teatral”, nas palavras do texto de apresentação da nova edição.

Passados 50 anos, o Oficina volta a encenar a obra de Chico Buarque, dessa vez mesclando-a a elementos da atualidade, em um transe que deixa a platéia com dificuldade de se achar no tempo histórico. Estamos na década de 1960 ou vivemos mesmo os tempos atuais? O personagem Anjo da Guarda, vivido por Gui Calzavara, parece incorporar as almas das pessoas que imita, tão fiel se torna o retrato vivo das figuras ridicularizadas. São elas: Sérgio Moro, Olavo de Carvalho, Janaína Pascoal e Jair Bolsonaro, entre outros. “Estar em cartaz com ‘Roda Viva’ e colocar em cena o autoritarismo é uma maneira de fomentar uma série de ações no público, nas maneiras de agir”, diz a atriz Camila Mota, que integra o elenco do Oficina.

Chico Buarque no ensaio da primeira montagem de “Roda Viva”, em 1968 | Foto: Acervo Teatro Oficina

A censura, prática comum dos regimes de exceção, parece ter dado o ar das graças no Brasil do século 21. Ainda não se sabe se veio para ficar, mas bateu à porta de um grupo do Rio Grande do Norte às vésperas de sua apresentação no Festival de Curitiba, um dos mais importantes da cena teatral do país. O prefeito da cidade, Rafael Greca (DEM), proibiu a apresentação da peça inspirada no conto de Caio Fernando de Abreu (1975), “Creme de Alface”. Ironicamente, o mesmo texto havia sido censurado durante o regime militar, e só foi publicado em 1994.

Em 2015, o diretor José Neto Barbosa, da “Sem Cia de Teatro”, começou a imprimir as declarações “monstruosas”, em suas palavras, que lia nas redes sociais. Juntou um compilado de frases de ódio de pessoas anônimas a um conjunto de citações de Jair Bolsonaro, religiosos e até pessoas de sua família para construir a adaptação do conto de Abreu, que fala sobre como as pessoas se tornam monstros no ambiente violento dos centros urbanos.

Não demorou muito para que os primeiros ataques começassem a chegar. Em Natal, cidade do diretor, dois patrocinadores abandonaram os investimentos na trupe e, em Mossoró (RN), um teatro não quis realizar a apresentação. O grupo não se abalou. Os atores foram para uma praça da cidade para denunciar o arbítrio, fato que se repetiu em Curitiba, onde o coletivo decidiu, depois da censura de Rafael Greca, se apresentar novamente ao livre. Ali, assistiram à encenação proibida, debaixo de chuva, cerca de três mil pessoas, número que não poderia caber no local que fora fechado pelo prefeito.

“A Mulher Monstro”, de José Neto | Foto: Divulgação

Para Neto, a reação de ódio não é nova. “O teatro sempre incomodou. Shakespeare, ao fazer Hamlet e contratar uma trupe de atores para encenar o crime do padrasto com o pai, fez com que as pessoas percebessem suas falhas enquanto seres humanos. Elas se identificaram e ficaram extremamente incomodadas. Com ‘A Mulher Monstro’ podemos ver que a personagem tem espasmos de maior consciência em que percebe que a falta de empatia com o outro fez com que ela apodrecesse por dentro”, comenta.

Os ataques foram tão graves que, quando chegou ao Paraná, José precisou andar acompanhado por uma escolta e chegou a desenvolver crise do pânico. “Por outro lado, temos um sentimento de muito amor. O que eles querem é que fiquemos mal. As instituições estão com medo, as pessoas estão com medo. Outras obras foram censuradas em Curitiba e os artistas não denunciaram. Corroborar com esse medo faz com que a gente se prejudique ainda mais. Temos que nos posicionar”.

A montagem já tinha se apresentado na capital paranaense em 2017. Naquele ano, as apresentações estiveram lotadas, sucesso que rendeu ao grupo apresentações em 12 cidades e 7 estados, totalizando 62 sessões e 7 mil espectadores. No mesmo período, a trupe ganhou o prêmio Cenym de Melhor Monólogo do Teatro Nacional.

O protesto também virou matéria prima de um coletivo de secundaristas que protagonizou as ocupações das escolas públicas de São Paulo entre 2015 e 2016. “Quando Quebra Queima”, dirigida por Martha Kiss Perrone, deslocou a altivez e coragem de alguns daqueles estudantes para o processo produtivo do teatro. Eles participam de tudo, desde a elaboração do figurino até a atuação no palco. Fruto da primavera secundarista que tomou o país, a peça narra a experiência das escolas ocupadas e traça uma linha entre as noções de “comum”. O coletivo já passou pela Mostra de Teatro de Curitiba, o Teatro Oficina e o SESC de São Paulo. “A gente encena e elabora memórias do que se viveu, trazemos toda uma manifestação, uma coreografia de combate, de levante, de insurgência”, explica Martha, a diretora. “Sempre terminamos o espetáculo na rua, bloqueando os carros por cerca de cinco minutos. Fizemos uma apresentação a convite do Teatro Oficina e, quando acabamos, já tinha seis viaturas esperando a gente”, conta.

“Quando Quebra Queima”, de Martha Kiss Perrone | Foto: Divulgação

Outro diretor que vem causando polêmica é Felipe Hirsch. A trajetória do dramaturgo e diretor é marcada pela política. Desde 2013, realiza junto à Companhia Ultralíricos espetáculos sobre a literatura brasileira e latino-americana que, nas suas palavras, “se relacionam com questões sociopolíticas porque a literatura desses lugares são marcadas por esse tipo de discurso”. Na montagem batizada de “Fim”, última peça do diretor, estreada em março deste ano, apresenta uma adaptação do texto do escritor argentino Rafael Spregelburd sobre questões artísticas em um momento de crise das instituições e dos parâmetros éticos da sociedade.

A obra é divida em quatro partes, “O Fim das Fronteiras”, o Fim da Arte”, “O Fim da Nobreza” e “O Fim da História.” Felipe afirma que evitou realizar uma “abordagem reativa ao que se passou no país e procurou focar na discussão do ofício do artista, porque se construiu um ódio muito grande à arte no Brasil”. Para ele, “falar sobre nosso ofício é falar de política, pois a arte nesse momento acabou se transformando em um espetáculo político”.

“Fim”, de Felipe Hirsch  | Foto: Divulgação

Apesar de não ter sofrido censura de forma direta, como ocorreu no caso da trupe de Natal, Hirsch faz um alerta: “Quando a Petrobras corta 25% para o cinema, isso é travestido de algo econômico quando, na verdade, é censura. A Mostra de Cinema de São Paulo não está aí desde o governo do PT. Está há várias décadas, ela já se provou. No campo privado que em todos estão, de alguma maneira, ligados à grandes corporações, passam a usar esse tipo de censura e você deixa de ter uma curadoria séria. Em relação às censuras pontuais, podemos reagir. A institucional, para mim, é a mais grave”. A atriz Camila Mota, de ‘Roda Viva’, concorda: “A falta de financiamento pela qual passa o Oficina, assim como o desmonte de todas as políticas culturais pelo governo, são uma forma de censura”.

Em “O Fim da História”, espécie de desfecho da peça, parece que o mundo tal como o conhecemos hoje, vai acabar. Mas Hirsch alerta que a intenção não foi dizer de forma literal que a história chegou ao seu limite, pelo contrário. Para ele, “precisamos atravessar o fim. Houve um golpe parlamentar e depois o encarceramento de um candidato que poderia ter ganhado as eleições, por isso não acredito que vivemos em um governo democrático. Não que a gente vivesse em uma democracia plena, porque sempre tivemos políticos eleitos através do poder econômico. Mas temos que lutar contra o pensamento retrógrado. Esse deve ser o fim”.

“Roda Viva” | Foto: Jennifer Glass

 

 

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