Bottons, cartazes, santinhos, memes e mensagens de WhatsApp compõem a linha nem sempre evolutiva da disputa política registrada em livro pelo designer gráfico Gustavo Piqueira

 

Por Camilo Vannuchi

 

Voltemos a 1982. A maioria dos eleitores que foram às urnas nas eleições quase gerais daquele ano — quando foram escolhidos vereadores, prefeitos, deputados, senadores e governadores — o faziam pela primeira vez na vida. A última eleição direta tinha sido em 1960. Qualquer brasileiro nascido depois de 1943 estreava naquele 15 de novembro a tarefa cívica de assinalar sua opção numa cédula. De papel, é claro.

 

Também eram feitos de papel os cartazes, panfletos e santinhos que se espalharam por todo o país. Alguns apócrifos, como manda a tradição. Boataria e discurso de ódio não são assim tão recentes em nossa história política. Alguns desses diferentes materiais de campanha, da estrelinha do PT às vassourinhas de Jânio Quadros, foram reunidos no livro Brasil Zero-Zero, lançamento do designer gráfico Gustavo Piqueira (Ed. Lote 42, 120 páginas, R$ 55).

O que sua coletânea nos mostra, após o advento das redes sociais e do WhatsApp, é que perdemos a inocência daqueles anos 1980, uma espécie de “anos dourados” do marketing eleitoral, quando a democracia não era esculhambada e os golpes baixos não eram tão baixos assim. “Vamos proteger nossas famílias do tóxico, do comunismo e da violência” dizia um cartaz apócrifo de Jânio Quadros, candidato vitorioso à prefeitura de São Paulo em 1985. “Delfim, Maluf, Reynaldo. Olho neles! Estão acabando com o Brasil”, atacava um folheto petralha três décadas antes de cunharem a expressão petralha.

 

Pulando para a eleição de 2018, o que o autor nos mostra é um cenário de barbárie. Agora não são mais os cartazes e panfletos que incendeiam a esfera pública. Os ataques se dão no submundo das mensagens compartilhadas por celular e no aterro sanitário das redes sociais. Na era dos memes, cada eleitor se torna um marketeiro em potencial. O chiste e as piadas — principalmente as de mau gosto — espalham-se como epidemia. O zap não poupa ninguém.

 

Provocador, Piqueira reúne no livro algumas das imagens mais preconceituosas que circularam pela internet em outubro passado. Parte delas pode ter sido criada por ele, o que não é explicitado em nenhum momento aos leitores. Ao longo de seis páginas, são exibidas dezenas de printscreens de grupos do Facebook em repúdio ao candidato do PSL: “Minions contra Bolsonaro”, “Anões contra Bolsonaro”, “Pulgas amestradas contra Bolsonaro”, “Bebedores de café contra Bolsonaro”. Piqueira também reproduz cards como um que mostra o mapa do Brasil sem a região Nordeste acompanhado da frase “O Brasil que eu quero”. Em outro meme, lê-se: “Se um Moro incomoda a esquerda, imaginem um Mourão”. Em um anúncio atribuído ao clube Bahamas e cercado de fotos de belas garotas com a camiseta do “Mito”, uma oferta especial: “Noite do #Mito! Se Bolsonaro for eleito no 1º turno a entrada é grátis!!!”

 

O excesso de misoginia e escatologia nas imagens de 2018 torna inevitável o sentimento de decepção com o presente. Onde o debate descambou? “Quem chupa buceta vota Bolsonaro presidente”, aparece em destaque numa das últimas páginas. Em outra, duas pessoas — reais ou inventadas por Piqueira — conversam por WhatsApp sobre uma foto de Manuela d’Ávila, candidata a vice-presidenta na chapa de Fernando Haddad, na qual foram aplicadas digitalmente uma faixa presidencial, olheiras e tatuagens de Lênin e Che Guevara:

 

— Eu topava essa Manuela fácil fácil — diz um deles.

— Kkkkkkk, topava significa encarar rs? Tá certo que já encarei coisa pior, mas com menos idade rsrs.

— Falta banho. Deve feder uma barbaridade.

— Joga numa bacia de cândida para lavar tudo e passa a rola

— Passar a rola sendo observado pelos “queridos” Che e Lenin??? Puta nega escrota!

 

Confira imagens abaixo.

 

O livro foi lançado pela Lote 42 e vem com um pôster dobrável em que se vê uma versão estilizada da bandeira do Brasil, em tons alaranjados. E sem a faixa central nem nada impresso no círculo. Pode ser adquirido por R$ 55 no site lote42.com.br e também na página do autor: gustavopiqueira.com.br.

 

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Jornalista, escritor, mestre e doutorando em Ciências da Comunicação pela USP, membro da Comissão Municipal da Verdade da Prefeitura de São Paulo