Em “Como as democracias chegam ao fim”, David Rucinman, da Universidade de Cambridge, reflete sobre as causas que debilitam os regimes democráticos

Por Irene Rezende

 

Ficou famosa a frase de Winston Churchill, primeiro-ministro britânico durante a Segunda Guerra: “A democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos”. O historiador David Runciman concorda com seu famoso conterrâneo. Para esse professor de Política da Universidade de Cambrigde, a democracia como a pior forma de governo ainda é a melhor para a convivência humana e nos garante a liberdade, assim, temos que cuidar dela com inteligência, perseverança e participação.

 

Em seu livro “Como as democracias chegam ao fim” (Editora Todavia, 2018), Runciman alerta para os perigos que estão corroendo as democracias pelo mundo. Mas não se trata de um manual de possíveis catástrofes, nem de um exercício de futurologia. Longe disso. O autor é até mesmo otimista, dentro das possibilidades existentes  numa conjuntura que assiste ao retorno de movimentos de extrema-direita, ascensão de líderes autoritários, mudanças climáticas de previsíveis efeitos deletérios e extrema desigualdade. O leitor não espere encontrar na obra um texto hermético e ou recheado de referências eruditas. Ao contrário. O livro é fácil de ler, resultado da clareza de raciocínio do autor. Muito cautelosamente não oferece soluções mágicas para evitar o fim da democracia, apenas nos leva a refletir sobre as causas que a debilitam.

 

David Runciman também é considerado uma das estrelas mais cintilantes da crescente onda de publicações sobre os perigos que rondam a pior forma de governo. Ao lado de seus colegas americanos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, autores de “Como as democracias morrem” (Editora Zahar, 2018), frequentam as listas dos mais vendidos desde o ano passado. Diretor do departamento de Política e Relações Internacionais da Universidade de Cambridge, esse professor inglês de 50 anos é constantemente solicitado para palestras e seminários que tenham como tema os ataques à democracia e formas de enfrentá-los. Ele ainda arranja tempo para alimentar um podcast semanal com análises políticas e entrevistas com historiadores, economistas e políticos.

 

Assinalando na introdução o impacto da vitória de Donald Trump, o autor investiga os tipos de golpe antigos e modernos, reiterando que estes últimos muitas vezes chegam através da própria democracia. Seu diagnóstico começa comparando dois golpes separados por mais de 2 mil anos: o golpe militar de 21 de abril de 1967, que jogou por terra o sonho do líder da esquerda grega, Andréas Papandréou, de se tornar primeiro-ministro da Grécia (depois ele o seria por duas vezes, mas essa já é outra história); o outro golpe foi na Atenas de 411 A.C., quando jovens aristocratas tomaram o poder depois de derrotas do exército ateniense em batalhas na Sicília.

 

A partir daí, Runciman vai desenvolvendo sua tese de que as democracias, mesmo enfraquecidas, podem resistir a tsunamis como Trump e Erdogan, da Turquia. Ele critica (e com razão) os eleitores que não participam ativamente da política de seus países, preferindo permanecer como meros observadores enquanto os políticos resolvem as coisas por si mesmos. É o que ele chama de “democracia zumbi”, muito conhecida e vivida por nós brasileiros. E são esses mesmos políticos que se aproveitam da apatia do povo para minar a democracia.

 

Para aqueles que tem a tentação de comparar os dias turbulentos de hoje com a década de 1930, Runciman propõe que o mais correto seria comparar com os Estados Unidos dos anos 1890, época em que a conjuntura tinha mais pontos em comum com a atualidade. Havia uma desconfiança generalizada na democracia. Mas ela superou essas turbulências e seguiu em frente, como outras crises semelhantes dentro dos EUA e em outros países, como França e Inglaterra.

 

E falando em revolução tecnológica, é a ela que o autor dedica dezenas de páginas: explica como a internet pode afetar as relações democráticas com os povos e faz referências a distopias criadas como alertas para as armadilhas das novas tecnologias, nas quais homens viram pecinhas nos jogos dos poderosos donos das startups do Vale do Silício.

 

Para o autor, o mais importante, e que ajuda muito a sustentar uma democracia, são as instituições fortalecidas – elementos em falta no Brasil, diga-se de passagem. Aliás, o autor, alertando para os perigos da democracia, cita a propaganda bolsonarista saudosista da ditadura (quando escreveu o livro, Bolsonaro ainda não tinha sido eleito).

 

Runciman não oferece soluções prontas para barrar efeitos dos ataques à democracia e também não vê em Trump o maior perigo para sua estabilidade. Surpreendentemente, acha que Mark Zuckerberg – sim, ele mesmo! o dono do Facebook! – é mais perigoso porque detém poderes que nos são desconhecidos ou nos escapam. Vimos a prova de tal tese tanto na eleição de Trump quanto na de Bolsonaro.

 

No final do livro, Runciman propõe ainda uma brincadeira e escreve um pequeno texto ambientado no ano de 2053, onde um inesperado presidente toma posse. O volume conta também com ótimas sugestões de leituras complementares sobre temas correlatos.

Irene Rezende é mestre e doutora em História Social e Política pela Universidade de são Paulo (USP) e colaboradora da Casa da Democracia. 

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