Conheça duas obras sobre personagens femininas à frente de seu tempo, no Brasil e nos Estados Unidos, que seja pela potência das sua escrita, das suas opiniões e atitudes, seja pela coragem que tiveram para seguir adiante a despeito da opressão.

Por Irene Rezende*

“Afiadas – As mulheres que fizeram da opinião uma arte”, de Michelle Dean (Ed. Todavia), é uma espécie de homenagem às escritoras que circularam por Nova York durante o século XX, deixando um legado na arte, na literatura, na política e no pensamento. Em um mundo onde os mais comemorados são os escritores masculinos como Hemingway, Steinbeck, Miller, Faulkner, Bukowski e Roth, as mulheres igualmente se destacaram no panteão da escrita americana. Especialmente esse seleto grupo pinçado pela autora, e que, em algum momento de suas vidas, moraram em Nova York.

Em uma época que não havia muito interesse nas vozes das mulheres, essas 12 autoras foram feministas de fato, avant la lettre, ou seja, antes do seu tempo.

A autora costura a narrativa de tal forma que há sempre uma conexão entre elas. Dorothy Parker conhecia Mary McCarthy, que conhecia Hannah Arendt, que conhecia Lilian Helmann, que conhecia Susan Sontag, que conhecia Joan Didion, que conhecia… Assim ela vai nos apresentando um perfil de cada uma das autoras com um rápido passeio por suas obras e como elas se viravam num mundo em transformação, dominado pelo machismo, desbravando territórios antes antes ocupados apenas por homens.

Muitas delas se recusavam ser chamadas de feministas — não porque não o fossem, mas não gostavam de rótulos e eram extremamente críticas. Cada uma, a seu modo, conquistou respeito e admiração em seus respectivos campos de ação, seja na academia, nas revistas especializadas, nos jornais, na crítica a livros, filmes e peças teatrais. A exemplo de Hannah Arendt, que teve brilhante carreira acadêmica, se destacando nos estudos e na crítica ao totalitarismo; Susan Sontag em ensaios sobre arte, obras filosóficas e romances; Nora Ephron na crítica aos costumes, direção e produção de filmes; Pauline Kael, afiadíssima nas suas críticas sobre filmes que deixavam os diretores de cabelo em pé, tamanha sua credibilidade.

O segundo livro sugerido, assim como o anterior, contempla várias mulheres – são 45 perfiladas. Desta vez o cenário é também único. Ao invés de uma cidade, um país: o Brasil. Assim as autoras Duda Porto de Souza e Aryane Cararo selecionaram as personagens extraordinárias que compõem o seu livro, ilustrado também por várias mulheres, entre elas, Laura Athayde e Veridiana Scarpelli.

“Extraordinárias: mulheres que revolucionaram o Brasil” (Seguinte/Companhia das Letras) destaca a trajetória de nossas conterrâneas, muitas vezes esquecidas ou desvalorizadas e que fizeram a diferença na história do Brasil. De Zilda Arns a Carmem Miranda, de Bertha Lutz a Cacilda Becker, de Nise da Silveira a Leila Diniz, a autora vai traçando seus perfis e as contribuições que cada uma delas legou ao país e a seu povo. Tudo em uma linguagem ágil e atraente, ensinando que a história do Brasil não foi só feita de homens valorosos, mas também de muitas mulheres que viveram e morreram com coragem e garra para levar adiante seus ideais de vida.

Muitas delas bem conhecidas, como Anita Garibaldi, Cacilda Becker, Zuzu Angel, Pagu e Anita Mafalti. Mas quem já ouviu falar de Bárbara de Alencar, a avó de José de Alencar, uma das primeiras prisioneiras políticas do país, quando lutava contra a coroa portuguesa? Ou de Maria Firmina dos Reis, escritora maranhense, autora do primeiro romance escrito por uma mulher no Brasil? Ou Antonieta de Barros, natural de Santa Catarina e a primeira líder negra a conquistar um mandato como deputada estadual no Brasil de 1930? Ou ainda Felipa de Souza, a primeira mulher a assumir publicamente sua homossexualidade e por isso foi condenada e castigada pela Inquisição no Brasil colônia?

O livro traz ainda uma linha do tempo sobre as mulheres brasileiras e suas conquistas, um glossário e a bibliografia pesquisada pelas autoras para contar a vida dessas 45 mulheres que fizeram história. A única ausência sentida, mas plenamente justificável (o livro é de 2017) é de Marielle Franco, batalhadora incansável pelas causas sociais e assassinada cruelmente no dia 14 de março de 2018 junto com seu motorista Anderson, num crime até hoje não solucionado.

Irene Rezende é mestre e doutora em História Social e Política pela Universidade de são Paulo (USP) e colaboradora da Casa da Democracia. 

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