Direita tradicional espanhola sofreu derrota histórica, enquanto a extrema direita novata do Vox obteve resultado expressivo, porém, abaixo das expectativas. “Voltamos a respirar um ar de otimismo”, diz a socióloga Esther Solano.

Por Ines Garçoni

As eleições na Espanha, no último domingo, marcaram a vitória expressiva do PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol), do premiê Pedro Sanchéz, que governa o país desde junho do ano passado. Vencida a batalha contra a direita, os socialistas de Sánchez e o Unidas Podemos, também de esquerda, comemoram a obtenção, juntos, de 18 assentos a mais que os três partidos aos quais fazem oposição: PP, partido de direita tradicional que governou o país de 2011 a 2018, Ciudadanos, de direita neoliberal, e Vox, jovem partido de extrema direita e retórica fascista. Este último, diz Esther, tem retórica muito semelhante a de Jair Bolsonaro e seus eleitores — leia aqui entrevista da socióloga, na Casa da Democracia, sobre o fenômeno bolsonarismo

Para entender o significado desta vitória e o que ela pode representar no momento em que as democracias se vêm ameaçadas em todo o planeta por movimentos e partidos de extrema direita, ouvimos a socióloga Esther Solano, espanhola radicada no Brasil e professora do curso de Relações Internacionais da Unifesp. Para ela, é preciso cautela ao analisar os resultados, mas é possível comemorar e tirar algumas lições.

Na sua opinião, o que representa a vitória da esquerda na Espanha, para a Europa e o mundo, neste momento de ascensão da extrema direita em diversos países?

Acho que é muito significativa. Porque a Espanha, como a maioria dos países do mundo na contemporaneidade, sofre de fato a ameaça da extrema direita, portanto, a população tinha um medo muito grande de um avanço importante do Vox. E o fato de o PSOE ganhar as eleições e poder formar um bloco de maioria de esquerda dá uma lição — e não apenas uma lição, mas uma semente — para a cena internacional de que parar o grande avanço da extrema direita é possível, sim. É claro que estas eleições não pararam de fato a extrema direita, porque eles ganharam 24 deputados no Congresso espanhol, e isso não é pouca coisa. Mas me parece que a vitória dos socialistas é um grande chamado, um aprendizado para o mundo: “Bom, nós temos a possibilidade de parar os extremistas intolerantes e esse grande avanço espetacular que eles vêm tendo”. Neste sentido, acho que voltamos a respirar um ar de otimismo. É uma boa notícia, para o mundo como um todo, e um importante simbolismo internacional no momento em que muitos países estão lutando contra a extrema direita. Passa uma mensagem de que podemos lutar contra eles.

A socióloga Esther Solano, da Unifesp: “Podemos lutar contra a extrema-direita”

E o que vc acha que o novo governo deve fazer, como deve se comportar, para que de alguma forma atrapalhe os planos da extrema direita espanhola daqui para a frente? 

Bom, não podemos esquecer que uma coisa é ganhar a eleição e outra é garantir a governabilidade, que não é fácil. Qual é o problema da Espanha? Primeiro, o Pedro Sánchez ganhou a eleição, mas não tem grande maioria no Parlamento, quer dizer, a direita não desapareceu e, provavelmente, vai ter uma posição firme e forte. Ao que tudo indica, a Espanha deve enfrentar, com bastante probabilidade, uma forte crise econômica, porque a Europa já está desacelerando o crescimento e uma próxima crise se avizinha. E outra coisa que preocupa muito é a questão separatista, com a Catalunha, que está muito complicada. Isso provoca uma reação nacionalista super forte na extrema direita. Então, estas duas questões estão pairando como possíveis dificuldades que o novo governo vai enfrentar, e são dificuldades grandes. A extrema direita anunciou na própria noite da eleição que vai chegar no Parlamento fazendo muito barulho. Vão chegar fazendo um jogo do grito, de posturas bélicas, de estar sempre na imprensa, enfim, um pouco a mesma retórica do Bolsonaro. Disseram que vão lutar contra a doutrinação, contra o marxismo cultural, contra a tirania e a ditadura da esquerda — aquele discurso “anticomunista” que a gente vê aqui no Brasil. Acho que isso vai ser um problema. Eles vão fazer muito barulho e tentar conduzir a política espanhola nos termos morais e nacionalistas que pregam. Agora, se vão conseguir ou não, dependerá de como o Pedro Sánchez reage às provocações, afinal de contas, ele tem uma base majoritária no governo. E também como a própria direita tradicional, o PP e o Ciudadanos, reage a tudo isso. Se eles vão se deixar levar por essa horda intolerante e fascista — como aconteceu no Brasil, que todo mundo se deixou levar pelo Bolsonaro e foi ele quem centrou o debate — ou se eles entram no debate com outro tipo de pauta. Veremos.

A que você atribui e vitória do PSOE? Você então não considera que a direita e a extrema direita saíram derrotadas das urnas?

Teve uma ida maciça às urnas, foi uma participação histórica. As pessoas tinham muito medo do Vox e de um bloco de direita se formando, e isso fez também com que o PSOE ganhasse muito voto útil. O Podemos diminuiu muito seu número de votos, também pela sua própria crise interna, porque o partido está num processo de desmembramento terrível. Então, muita gente que tinha migrado do PSOE para o Podemos voltou a migrar do Podemos para o PSOE, incrédulos e frustrados com a política do Podemos, e deu voto útil para quem e fato tinha chance de ganhar as eleições. Por outro lado, a própria derrota da direita tradicional foi muito importante. Sea direita saiu derrotada nas eleições? Depende da direita. Se pensarmos na direita tradicional, o PP, foi um massacre. De 135 deputados eleitos em 2016, eles ficaram agora com 66, um número patético para um partido acostumado a governar a Espanha. No entanto, se pensarmos nos Ciudadanos, de uma direita neoliberal, formada por pessoas jovens, mais sofisticadas intelectualmente e progressistas no âmbito dos costumes, esse grupo foi a direita vencedora das eleições. Praticamente dobraram o número de deputados.

É importante que haja uma direita mais democrática, mais intelectualizada, que consiga parar um pouco o avanço da extrema direita. Porque a maioria dos votos da direita migrou para os Ciudadanos, que é mais democrático e não tem nada a ver com o discurso fascista da extrema direita. E depois, não podemos considerar o Vox perdedor porque eles ganharam 24 deputados, sendo um partido formado há poucos anos. Chegaram com muita força no parlamento, 24 é um número muito expressivo. Mas, a verdade é que ficaram aquém das expectativas, porque as pesquisas estimavam muito mais deputados para eles. Portanto, eu diria que eles ganharam bastante força, mas ficaram aquém do esperado. Agora vamos ver como se configura isso. Principalmente vamos esperar para ver como o PP vai agir, porque o grande erro do Partido Popular foi, como o PSDB aqui no Brasil, virar muito à direta. Viraram tanto que muitos votantes não gostaram dessa guinada e acabaram indo para os Ciudadanos. Vamos ver agora que caminho eles vão tomar. E vamos ver como governará o PSOE. Uma coisa são as promessas de campanha e outra é governar diante de uma próxima crise etc. Aguardemos os próximos capítulos.

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