O presidente da Empresa Brasil de Comunicação, Alexandre Graziani, no último dia 9 de abril, emitiu uma portaria que realiza a fusão entre a TV Brasil e TV NBR. As duas emissoras estão sob a alçada da EBC, porém, não podem misturar as estações, sob risco de violarem o artigo 223 da Carta Magna: à TV Brasil cabe a difusão de conteúdo de interesse público nacional, que reflita a diversidade da cultura brasileira e seja produzido com independência editorial; enquanto à NBR cabe a divulgação de assuntos de Estado e de governo, como faz, por exemplo, o programa A Voz do Brasil no rádio. Após repercussão negativa, Graziani recebeu intimação do Ministério Público. 

Para falar sobre o tema, a Casa da Democracia recebeu Eugênio Bucci, professor da USP e ex-presidente da Radiobrás (2003-2007). Em entrevista, ele critica as medidas recentes do governo Bolsonaro, que chama de “tragédia”, em relação à comunicação pública, embora considere que muito pudesse ter sido evitado, e aponta os limites da implementação do sistema público de comunicação nacional – do qual fez parte -, além de analisar experiências de outros países, entre outros assuntos.

Participaram as jornalistas e ativistas pelo direito à comunicação Ana Mielke, jornalista e coordenadora executiva do coletivo Intervozes, e Renata Mielli, secretária geral do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé. Ambas são do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação. Além das duas convidadas, participaram ainda os jornalistas Camilo Vannuchi e Ines Gaçoni e a historiadora Irene Rezende, da Casa da Democracia

Camilo – Gostaria de começar com uma pergunta sobre uma frase do livro O Estado de Narciso, de Eugênio Bucci: “A comunicação pública precisa ser pública”. O que você quer dizer com isso?

Eugênio Bucci – Vamos pensar na televisão pública, para ficar mais preciso: no sistema previsto na Constituição, a TV pública não é nem estatal e nem comercial. A televisão comercial é fácil de entender porque é aquela que a gente viu a vida inteira no Brasil, que vive – teoricamente, pelo menos – do que arrecada vendendo inserções comerciais. A televisão estatal não, ela terá dotações orçamentárias. Em terceiro lugar, a TV pública pode mesclar elementos destes dois modelos, mas não se confunde com nenhum deles. Primeiro, porque ela não tem finalidade comercial, não tem finalidade de lucro. Segundo, porque é gerida pela sociedade: nem pelo mercado, nem pelo Estado. Significa que quem comanda a TV pública são representantes da sociedade, escolhidos por critérios variados, que eles expressem a composição e os interesses daquele público a que a televisão se destina. Neste sentido, é uma televisão gerida pela sociedade a quem ela se dirige, sem interferência do Estado e, importantíssimo, sem interferência do mercado. O que eu quero dizer quando afirmo que a televisão pública precisa ser pública? É que ela não pode ser estatizada, não pode ser governista e, ao mesmo tempo, não pode ser privatizada. Eu considero indevida essa inflexão da televisão que deveria ser pública na direção do mercado, assim como considero indevida a inflexão na direção do estado ou do governo quando a TV Cultura – ou outras – se presta a fazer bajulação de autoridades do governo. Então esta é a definição. Não pode ser nem do mercado, nem do governo.

Camilo – A gente isso?

Bucci – Não temos isso no Brasil.

Irene Rezende – Dê um exemplo de país que tem isso?

Bucci – Eu gosto de começar pelos Estados Unidos, porque quase todo mundo acha que os EUA são a meca do comércio e da televisão comercial. E são mesmo, mas têm algo além disso. Temos lá dois modelos muito interessantes. Um são as PBS (Public Broadcasting Service): cerca de 360 emissoras associadas que têm uma conjugação de interesses — não têm uma grade nacional de programação, mas se associam para determinados fins comuns e atendem às comunidades onde estão. Existem cidades em que a PBS tem sido muito forte. E uma coisa interessante da televisão pública nos EUA é que ela pode receber doações e recebe doações de indivíduos. Mais um exemplo americano fantástico é a NPR – National Public Radio. São as rádios públicas, muitas delas ligadas a universidades, são cerca de 900 emissoras que fazem também uma programação compartilhada, mas não com uma grade nacional, em alguns programas eles são muito fortes, e na parte de jornalismo internacional dão um banho. A NPR, do início do século 21 para cá, registra momentos muito significativos de audiência. E tem um site e um sistema de compartilhamento fantástico. Quando eu dirigia a Comunicação Social da USP, cheguei a ensaiar um congresso em que traria pessoas da NPR e de outros países para desenhar no Brasil  um modelo de compartilhamento de rádios públicas. Na Radiobras, hoje EBC, criamos uma radio agencia nacional, que em pouco tempo tinha 2500 associados – não sei como estão os números hoje — que pegavam a programação, que é pública, e isso dá uma segunda vida a esse conteúdo muito forte. Mas podemos fazer isso de forma muito mais inteligente.

Ana Paula – Na pergunta sobre se a gente tem essa TV pública no Brasil, você disse que não. Queria que me dissesse se ela já existiu? Porque a TV Brasil nasceu para ser essa televisão pública.

Renata – Minha pergunta também ia nesse sentido. Quando a EBC foi criada, o que se pretendia era transformar aquilo no início de uma construção de um sistema público. Por que você acha que isso não se efetivou?

Bucci – Eu fui envolvido, desde 2002, 2003, na formação deste projeto e, na transição, quando pedi para me desligar, no dia seguinte à reeleição do presidente Lula – mas fiquei mais 6 meses -, trabalhei num projeto que era a fusão da Radiobrás com a TVE do Rio de Janeiro. Eu propus uma fundação pública. Tenho compromisso com essa história e acho que a criação da EBC representou um passo à frente. A TVE era uma fundação, depois uma Organização Social, e a Radiobras era estatal. A TVE tinha esse modelo com bastante distância de governança em relação ao Governo Federal, e era vinculada ao Ministério da Educação (MEC), uma parte, e uma parte era Ministério da Cultura (MinC). Alguns serviços a TVE prestava para o MEC, mas tinha uma vinculação – e não subordinação – ao MinC. Eu defendi essa fusão com a natureza jurídica de uma fundação pública, prevista na legislação. Isso traz varias amarras difíceis de administrar depois, mas é um caminho.

O caminho escolhido foi o de manter a natureza jurídica da Radiobras, que é a estatal. A coisa mais importante de uma estatal é a existência do conselho de administração. A EBC criou um conselho curador, que era significativo porque reunia pessoas de diferentes recortes da vida brasileira, mas era um conselho sem poder. Ele podia, por exemplo, sugerir voto de desconfiança, mas quem toca a empresa é a direção subordinada ao conselho de administração, que faz reuniões mensais. Este modelo de todas as estatais. Qual é a composição do conselho de administração? Isso é importante ter em mente: como de outras, é determinada pelo Palácio do Planalto e ministérios. Um da Presidência, normalmente da Secretaria de Comunicação (Secom), que em geral seria o presidente do Conselho, um do ministério da Fazenda, um das Comunicações, um do MinC etc. Ora, o que isso representa no comando de uma empresa responsável por canais de comunicação? Representa qual vontade? A vontade do governo. Esse é o problema da caracterização dos canais sob esse comando como canais públicos porque eles não são geridos pela sociedade, são geridos por representantes do poder executivo, dos ministérios. Existia o Conselho Curador? Existia. Era bom? Era. Existia conselho curador na Radiobras? Não? Existia na EBC? Existia. É melhor que exista? Claro. Só que esse passo foi insuficiente para demarcar a independência daquela estrutura em relação à vontade do governo.

Renata – Essas críticas nós fazíamos ao processo, e na construção da Lei da EBC, muitos dispositivos foram incluídos para blindar o máximo possível a ingerência do Estado no dia a dia da empresa. Estávamos começando um processo, que contou com etapas e pressões da sociedade, para que a gente evoluísse para mais independência. Você não acha que a gente não poderia ter evoluído para consolidar uma comunicação pública?

Bucci – Eu acho que dava para evoluir, eu apostava e acreditava nisso, mas, ao mesmo tempo, e eu sempre disse, que a EBC era melhor que a Radiobras. Mas sempre disse que o passo era insuficiente, e existiam condições de ter sido feita uma mudança mais radical e definitiva. Eu concordo com o que você está falando e escrevi essas coisas, acredito nisso. Mas tivemos um problema naquela altura que passa pela questão da natureza do poder. Não é um debate apenas da forma jurídica. Não podemos nos prender a forma jurídica. Como fiz a mudança na Radiobras, que preparou a construção da EBC? Não mexi em nenhuma linha que existia sobre a Radiobras. Naquela legislação estavam impedidas práticas de propaganda, de proselitismo, de porta-voz, de assessoria de imprensa. Estava na lei da Radiobras. Às vezes expressa, às vezes indiretamente posto. Com base naquela legislação eu trabalhei uma mudança de cultura na Radiobras e isso é mais importante. Mas deixa eu ir ao ponto. Acredito que nós estamos vivendo no Brasil uma tragédia, e não estou exagerando. É uma tragédia com relação ao zelo pela nossa democracia, os exemplos são inúmeros. E há um dado particularmente perverso dessa tragédia quando a gente fala da EBC. Qual é? A candidatura Bolsonaro falou o tempo todo que ia fechar a EBC. Eu dizia que eles não iam fechar.

Ines Garçoni – Não só o Bolsonaro, mas também o Alckmin e o Amoedo diziam que iriam fechar a EBC. Por que os nossos liberais e conservadores odeiam tanto a comunicação pública?

Bucci – Eu diria que a maior parte dos liberais que fazem esse tipo de comentários sobre as instituições públicas de comunicação, não as estatais, desconhecem a matéria. São mal assessorados. Mas conheço liberais que defendem a ausência de necessidade para estruturas estatais de comunicação. Vou citar um deles, que escreveu um artigo que eu publiquei, que é o Fernando Schiller, e ele argumenta que isso pode ser suprido por um mercado bem regulado. Ele defende isso. Eu não concordo com essa posição, mas é uma posição importante. É importante ouvir e entender o que está sendo vocalizado. Estou citando uma exceção boa, mas a maior parte me parece desconhecimento e falta de assessoramento.

“Eu achava que, como as falanges bolsonáricas adoram a comunicação, quando percebessem o equipamento à disposição, não iam acabar com isso (a EBC). Iam capturar e dar uma potência de doutrinação. E o que dói em mim é que eles pegaram o aparato deixado pela experiência da qual eu fiz parte. Não conseguimos desmanchar o dispositivo que se prestava à pregação autoritária”, diz Eugênio Bucci, ex-presidente da Radiobras.

Ana Paula – Você não acha que tem mais a ver com um fenômeno latino americano de as elites políticas terem uma relação intrínseca com as elites que comandam a economia da mídia? E você impede que a comunicação pública cresça porque ela é uma concorrente “desleal” para este setor porque recebe dinheiro do governo, que é o argumento deles, inclusive.

Bucci – Sem dúvida. Isso acontece muito na América do Sul. Mas vamos estabelecer um arco mais longo aqui, senão não vamos conseguir incluir problemas que o nosso conforto intelectual prefere deixar de fora ou, às vezes, são problemas que podem desorganizar os consensos que tivermos. A imprensa nasce como ferramenta de articulação de poder. Ela não tinha finalidade comercial nem informativa, nem cultural. Tinha finalidade de conquistar o coração das massas, o debate público e o poder. A associação entre imprensa e política é vital, é do DNA desse negócio, e é importante para nós hoje porque quando a gente fala, eu falo, que precisa haver na comunicação pública uma separação clara e drástica em relação ao estado e em relação ao mercado, é justamente porque a comunicação é política. E a política não se resume ao Estado, aos partidos e ao mercado. Existe uma política de alta extração e de alcance fecundo em muitos segmentos da vida social que não passa por esses registros.

Mas quando vem essa tragédia, que elegeu como inimigo da pátria, da família e de Deus um grupo formado por professores, intelectuais, jornalistas, gays LGBT e artistas — e o governo Bolsonaro é um caos em tudo, menos na essência da política dele, que é a doutrinação, a pregação —, eu sabia que eles não iam acabar com a EBC. Aí quero voltar para aquele ponto. Porque os liberais, em geral, diziam que essa estrutura não servia para nada. Mas eu achava que, como as falanges bolsonáricas adoram a comunicação, quando elas percebessem o equipamento que está lá à disposição, elas não iam acabar com isso. Iam capturar e dar uma potência de catequese, no pior sentido, de doutrinação. E o que dói em mim é que eles pegaram o aparato deixado pela experiência da qual eu fiz parte. Não conseguimos desmanchar o dispositivo que se prestava à pregação autoritária. Porque para fazer isso era preciso uma renúncia. Eu falei isso muitas vezes e acho que não fui entendido. O Planalto tinha que, em primeiro lugar, renunciar à ascendência e ingerência sobre a EBC e entregar essa máquina para o MinC. E o Estado tinha que renunciar ao formato empresa estatal.

Renata – Talvez, se não tivesse havido o golpe do impeachment, o processo de consolidação da comunicação pública pudesse ter seguido…

Bucci – Eu não acredito. A EBC foi criada em 2007, a Dilma foi cassada em 2016.

Ana Paula – O Eugênio está dizendo que existe um vício de origem.

Bucci – É isso que eu estou dizendo.

Ana Paula – Mas a gente acredita que ele seja superável.

Renata – Para fazer tudo o que o Temer fez, ele teve que fazer uma Medida Provisória e mudar a lei. Se fosse uma Fundação, tudo isso também poderia ter acontecido.

Bucci – Não poderia. Eu temo que a gente seja abduzido por uma discussão que não vai apontar para lugar nenhum. O Temer, legalmente, com duas ou três canetadas, podia destruir a EBC, e foi o que ele fez. Ele tentou um caminho, trombou no Supremo, e depois propõe uma MP. Por exemplo, se o governo de São Paulo quiser acabar com a TV Cultura, ele pode cortar uma parte da verba da TV Cultura – ela tem outras receitas, eu não acho certo, mas tem. Mas vai ser um problema porque não existe acesso para a determinação governamental dentro da TV Cultura. Existe através de conselheiros que representam o governo mas que, numericamente, não são maioria.

Mielli – Não são maioria?

Eugênio – Não são. Os ministros indicam alguns. Numericamente, os representantes do governo, no conselho da TV Cultura, não são representantes do governo. Eu temo que a gente seja abudizido, porque fica naquele drama pequeno burguês “onde foi que eu errei na educação do meu filho.” A gente não pode embarcar na narrativa de tudo que tudo ia se resolver, mas que aí veio uma coisa de fora. Eu sei que não é o que você está falando.

Renata – É só reconhecer que houve uma ruptura e, agora, essa ruptura claramente vai no sentido de destruir.

Bucci – Está começando a acontecer uma coisa que estava no cronograma desse ideário que é o ataque contra a universidade pública. Já estão fazendo uma CPI contra as três universidades publicas sem objeto definido. Nas federais os ataques são em diversas frentes. Ataques contra as vagas por designação não preenchidas. O professor é ao mesmo tempo professor e chefe de departamento e ganha um adicional, então as vagas foram cortadas. Aqueles que defendem, ou trabalham, ou buscam soluções para questões ecológicas e ambientais, diversidade, tudo isso que a gente conhece. O ataque está começando e vai ser violento. Nenhum país liberal abriu mão da universidade pública. A universidade pública pode cobrar anuidade dos alunos e não fica menos pública por causa disso. Eu não acho que esse seja o modelo para o Brasil, mas nos EUA, onde as universidades podem cobrar e, às vezes, é uma cobrança de um valor pouco expressivo, a sociedade não abre mão da universidade pública. O que está implicado é a ideia do conhecimento público, de que ele não pode ter dono, não pode estar dentro de uma cerca de arame farpado, que as teses precisam ser defendidas à portas abertas. Isso é algo definidor. Não é porque o Estado simplesmente gosta de gastar dinheiro. Por que foi criada a Universidade de São Paulo no Brasil? Porque a elite paulista identificou a necessidade de formação de quadros para o Brasil. Quadros profissionais, quadros culturais.

Renata – Em um contexto de inserção de São Paulo no poder nacional…

Bucci – Exatamente. Havia um mal estar ou mesmo um enfrentamento contra o Vargas. Isso tudo mostra que a elite, a burguesia, não abre mão da ideia de universidade. Em outros lugares a burguesia investe na universidade pública. De outro lado, porque as pessoas tem direito à educação pública? Nós não compreendemos e não explicamos isso direito. Porque os homens nascem livres, iguais, em dignidade e direitos, e todos precisam ter assegurados os caminhos e as oportunidades para chegar ao lugar mais alto. A política pública vai operando no sentido de igualar as iniquidades e a oferta de oportunidades e é por isso que as pessoas têm direito. Por que as pessoas tem direito à educação? Porque vão delegar o poder e, para isso, precisam ter a maior parte do conhecimento e saber dialogar com as autoridades. A democracia acredita nisso. Um país que não pode abrir mão da educação pública, da universidade pública, pode discutir o orçamento da universidade, a gestão, eu acho até que deve, mas ela não pode abrir mão.

Esse país também não pode abrir mão de critérios públicos para a informação da sociedade. É aí que entra a comunicação pública e o Brasil abriu mão de construí-la. A televisão está presente em inúmeros países que deram certo. Veja a Alemanha: tem duas instituições, a mais conhecida é a Deutchwelle, voltada à área internacional, e têm instituições de orçamento muito maior que cuidam do jornalismo. Elas não estão fazendo programa de ópera e de balé – que também são importantes – mas fazem jornalismo, que precisa ser independente. Hoje testamos e discutimos modelos de negócios que podem assegurar a sobrevivência do jornalismo na democracia. Uma saída já foi dada, que é a saída das instituições públicas. A BBC produz um jornalismo que se nivela às melhores redações, os parâmetros adotados por ela são lições. Quando decidimos abrir mão de uma comunicação pública, mesmo que a gente não a tenha, é a mesma coisa que decidir que podemos abrir mão da universidade e da educação públicas de qualidade.

Renata – O discurso do governo pregou, na unificação das TVs, que a medida é uma eficiência do Estado e da economia. Essa é uma justificativa que serve para tudo. E você não tem uma sociedade disposta a lutar por isso porque não compreende a comunicação como um direito. Como sensibilizar as pessoas de que precisamos lutar pela comunicação pública?

Bucci ­­– Por que o governo Bolsonaro unifica TV NBR e TV Brasil? A primeira, uma TV estatal, e a outra, se pretende ser uma TV de programação de canal público. O Bolsonaro faz isso porque, na cabeça desse governo, não só do presidente, uma mentalidade que prevalece é que a imprensa é uma indústria de mentiras. É interessante como ele e o Trump acusam a imprensa de ser uma indústria de mentiras, o que é uma dupla ignorância. Para haver fake news é preciso haver news, a fake news – eu acho até que é um conceito vago demais – designa que o objetivo tem aparência de notícia jornalística quando na verdade não é. Para haver dólar falso é preciso haver dólar. Precisa haver o referente verdadeiro para que o falsificado assuma algum valor, alguma autoridade. Acusar a imprensa de fake news é uma dupla ignorância porque não se sabe o que é fake e nem o que é news.

“Nunca defendi muita coisa que está aí. Na minha opinião, facilitaram o caminho para essa tragédia. Mesmo assim, acho que se trata de uma tragédia enorme. Mas acho que essa perda começou antes. Eu não acho que ela aconteceu quando veio o impeachment ou o Bolsonaro. Nós não enraizamos o projeto de comunicação pública nas aspirações da sociedade.”

Renata – É uma dupla ignorância ou é intencional?

Eugênio – Ela é dita com tanta sinceridade e tanta falta de inibição que às vezes acho que eles pensam isso. O Trump acredita que a imprensa difunde fake news como quem diz que a imprensa difunde mentira. Eu sou um dos primeiros a concordar. Existem notícias que contam mentira, mas não são falsas notícias. É outro tipo de mentira. Há várias mentiras na história da humanidade, mas não são fake news. As fake news são um fenômeno da era digital, das mídias digitais, uma disseminação enorme de meios para fabricação de um objeto que tem um aspecto de notícia sem ser notícia. Eles acham, no entanto, que a imprensa só existe para iludir, enganar o povo. Eles acreditam em verdade, o que é outro problema. Acreditam que são os portadores da verdade. Nós vamos ver na Hungria, o Órban começa a se afirmar autoritário pela criação de instrumentos, ligados ao Estado, de propagação de ideologia. Outro dia o Trump disse que queria uma TV estatal. Na cabeça dele não é propaganda, é para restabelecer a verdade.

Vamos voltar ao caso brasileiro, ao Bolsonaro. A TV NBR mostra as agendas oficiais do presidente e as ações do Estado. A NBR não é bem uma estatal, apenas. A TV câmara é estatal. A TV senado é estatal. Mas a NBR é uma televisão cuja programação se restringe à atos oficiais do governo, como solenidades, encontro do presidente com outros chefes de estado, discurso do presidente e entrevista com ministros. Na cabeça deles isso é a verdade. Qual a diferença entre isso e o Jornal Nacional? É que o Jornal Nacional não colocaria essas coisas no ar. Qual a contradição que existe, na cabeça deles, entre o discurso do presidente sobre os plantadores de soja e uma reportagem investigativa sobre o problema agrícola, e os canavieiros, e os proprietários das plantações, do beneficiamento da cana de açúcar? Nenhuma. A verdade então é o que governo está dizendo. Ele não vê porquê, metodologicamente, essas coisas devem estar separadas. Isso é mais uma parte desse delírio autoritário.

Ana Paula – Além da perda da possiblidade de ter uma TV pública fortalecida no Brasil, perdemos a oportunidade de construir uma cabeça de rede no Brasil que pudesse ser uma retransmissora, uma circuladora de comunicação pública, comunitária, produzida para além do eixo Rio-São Paulo-Brasília. Essa perda talvez seja ainda mais radical. Você acredita que teve alguma perda com essa resolução da EBC?

Bucci – Eu acho que representa uma perda enorme o que vem acontecendo em relação à TV pública. Eu nunca defendi modelos de gestão perdulários, e existem vários. Nunca defendi apadrinhamento político nos equipamentos públicos das TV brasileiras e isso aconteceu muito. Quem está lá por mando de cacique não é alguém comprometido com o público, e sim com a vontade de seu chefe, e isso foi um desastre. Nunca defendi muita coisa que está aí. Na minha opinião, facilitaram o caminho para essa tragédia. Mesmo assim, acho que se trata de uma tragédia enorme. Mas acho que essa perda começou antes. Eu não acho que ela aconteceu quando veio o impeachment ou o Bolsonaro. Nós não enraizamos o projeto de comunicação pública nas aspirações da sociedade.

Sobre a cabeça de rede: nós ainda hoje nos perguntamos muito sobre isso. Muitas coisas podem ser feitas sem ondas eletromagnéticas. Eu não quero cair no modelo sem ondas eletromagnéticas e, portanto, sem necessidade de mediação do Estado para fazer a outorga. Porque existe a outorga? Porque os sinais são escassos. Quem vai regular é o Estado. É loucura dizer que não há regulamentação. É óbvio que tem, mas tinha que ser melhor. A gente sempre pensa nessa questão da cabeça de rede, mas hoje as tecnologias digitais permitem muita coisa e podemos trabalhar isso. Mas temos que evitar ingenuidades: a de que basta um celular, por exemplo. A necessidade de capital com essa tecnologia é muito maior do que o capital necessário para entrar num negócio de televisão.A distância vertical entre os excluídos e os incluídos é muito maior do que a que existia na televisão de sinal aberto e muito maior do que no tempo dos jornais impressos. Hoje não basta você comprar um telefone; precisa uma série de fortalecimentos tecnológicos muito difíceis. Mas se você olhar Netflix e outros, você não precisa de ondas eletromagnéticas e acredito que o Estado deveria pensar nisso.

Ines – Se você pudesse escolher algo concreto, que poderia ter sido feito antes do governo Boslonaro, que minimizasse ou resolvesse o problema, o que você teria feito?

Bucci – Eu colocaria dois pontos: faltou vincular a EBC ao ministério da Cultura e entragá-lo a outra dinâmica. Havia riscos, eu não sei o que aconteceria no caminho. E faltou fundar não uma empresa pública, mas uma fundação pública com um conselho de representantes da sociedade. Isso também teria muitos riscos, mas afastaria a EBC da sanha do poder. E a sanha do poder depende de quem está no poder, mas também não depende. Ela é sempre nociva. Essas coisas faltaram.

Camilo –  Em relação ao artigo 223, de complementariedade dos sistemas, o que podemos fazer para regular? Tem país que botou 30% para cada coisa. Como faz, não só em relação ao percentual, mas em ao que é estatal e o que é público? O que dá para se regular para evitar esse problema de confusão que se discutiu hoje entre público e privado?

Renata – Com todos os problemas que você vê na TV Brasil, mesmo assim, você acha que é preciso um movimento para impedir essa unificação?

Bucci – Quero dar um exemplo do que é a baderna de regulação em que nos encontramos. Não existe Voz do Brasil no horário nobre da televisão. Tem no rádio, às 19h. Quando Getúlio Vargas inventou, era horário nobre, mas hoje não é mais. Um jornal impositivo, vindo do poder, de tudo que fazia sentido num momento fascista. Hoje seria um desastre uma Voz do Brasil em horário nobre. Mas temos uma coisa pior que isso: as emissoras abertas abrem seu espaço para igrejas. Temos uma confusão entre duas esferas que jamais deveriam se fundir: a esfera religiosa e é a esfera do mercado de comunicação social. Igreja tem regime tributário diferente e todo um disciplinamento jurídico diferente. Como é que uma igreja pode comprar horas seguidas da grade de programação de grandes redes de televisão? Algumas são donas extra oficiais de canais. Como é possível? A democracia distribui claramente três esferas que não podem se confundir: partidos, meios de comunicação e igrejas. No Brasil os três se embolaram com muitos prejuízos para a democracia e corromperam as instituições democráticas. Isso é algo a ser equacionado. O outro seria uma emissora pública fazer veiculação de propaganda comercial. Eu não concebo isso. Uma emissora quando oferece trinta segundos para um anunciante privado pode oferecer por um preço reduzido porque ela ganha dinheiro do governo, então ela acaba fazendo concorrência com emissoras que deveriam viver somente disso – que, em tese, só vivem disso, não estou dizendo que não vivam de outros negócios.

É o que justificaria um esforço de luta. Eu não gosto dessa palavra. Ela ficou vazia para mim, há muito tempo. Essa é uma palavra difícil. Mas eu acho que existem várias oportunidades da gente criar organismos autônomos de trato com a informação e eu acredito que isso aqui é um tipo. Estávamos falando agora a pouco do furo de reportagem da Ines Garçoni, que vocês publicaram com o The Intercept. Aquilo é jornalismo. O que faz diferença são redações inteligentes e independentes. Redações são equipes inteligentes porque são capazes de pensar coletivamente. Que tem uma visão de mundo e foco em atender ao interesse da população, em se informar. Não deve ter um partido, uma religião, mas uma visão. Se você consegue essa independência com inteligência, equipes, você está construindo uma compreensão da necessidade da informação. Vamos pensar um caminho um pouco mais nessa direção e menos na defesa reativa. É preciso juntar isso a uma ideia de revolução dos conceitos dentro da EBC. É preciso trabalhar equipes da EBC e de outras emissoras em seminários, encontros. Iniciativas de educação são essenciais. Um boletim sobre comunicação pública pode fazer a maior diferença. A tragédia não é maior no Brasil porque até aqui a sociedade civil não deixou. Há resistências aqui e ali, muitas coisas foram perdidas, muita coisa de pior vem pela frente, mas há uma possibilidade de enfrentamento. O que está acontecendo aqui não é diferente do que acontece em outros lugares, ou seja, essa vitória de líderes com pouca ilustração e bastante truculência, com uma mensagem alicerçada na violência, antidemocrática, anti garantias individuais. Tem muita gente enfrentando isso e existem caminhos para agir. Eu acho que a educação e a informação são territórios privilegiados para isso.

 

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