Clássico do pensamento democrático, Discurso sobre a servidão voluntária, de Étienne de La Boétie, questiona subserviência do povo ao Estado autoritário e prega resistência política contra a tirania 

Por Irene Rezende*

Desde as manifestações de junho de 2013, o Brasil entrou numa espiral de acontecimentos que anda nos tirando o fôlego. Lava Jato, impeachment, escândalos envolvendo políticos, desastres ambientais, recrudescimento da violência, aumento da desigualdade e, para piorar, sofremos retrocesso nos direitos duramente conquistados. Para lembrar uma expressão usada na época da proclamação da República, assistimos “bestializados” aos descalabros perpetrados pelo atual governo. E nada fazemos. Como explicar essa apatia ou cegueira que tomou conta do povo brasileiro? Somos como um rebanho bovino em direção ao matadouro em pleno século 21? Parece difícil explicar.

O jeito então é buscar conforto nos clássicos do pensamento político. Mas o que são os “clássicos”? Recorro ao escritor Ítalo Calvino:

“Os clássicos são livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos”.

Certamente é o caso de o Discurso da servidão voluntária (muitos preferem Da servidão voluntária, de acordo com o título original francês De la servitude volontaire), escrito em 1548 por um jovem francês de 18 anos chamado Étienne de La Boétie(1530-1563). Nascido no ano de 1530, em uma família abastada, estudou Direito na Universidade de Orleans – centro de debates, onde professores estimulavam nos alunos a especulações filosóficas –, sempre se destacando por sua profunda inteligência e curiosidade no conhecimento dos clássicos gregos e romanos. Era amigo dileto do filósofo, pensador, escritor e mestre do ensaio Michel de Montaigne (1533-1592), que herdaria todos seus escritos e seria responsável pelas publicações dos mesmos. Boétie morreu jovem, aos 33, mas deixou uma inestimável contribuição para o pensamento político e social, além de poemas românticos. Era um pacifista e anti-escravista à frente de seu tempo.

A França vivia sob o reinado de Henrique II, que impunha aos seus súditos impostos extorsivos. Um deles era sobre o sal, chamado gabelle, que afetava principalmente os camponeses e os mais pobres. O sal era fundamental na vida dos cidadãos: com ele se cozinhava, preservava os alimentos, fazia queijos e alimentava o gado. Assim, o imposto sobre o sal se tornou uma das formas mais odiadas de taxação de mercadorias.

Foi uma cobrança severa por parte dos agentes reais que levou La Boétie a escrever o Discurso, sua obra mais conhecida. O que espanta é sua atualidade ao questionar a subserviência e a passividade pelas quais as populações se submetem a governos autoritários. Ao ler este pequeno volume, reconhecemos muitas de nossas mazelas atuais e facilmente nos espantamos com as similaridades em relação às mazelas do século 16.

Expressando uma angústia universal diante da opressão e da injustiça do Estado, a obra foi usada por rebeldes protestantes para justificar um rompimento com o rei. Até os Estados Unidos usaram Discurso da servidão para estimular adesões ao exército na Segunda Guerra, com o título adaptado de Anti-Dictador.

Os anarquistas o adotaram também, por se identificarem com a ideia que o livro traz de que, para se livrar de um tirano, o povo só precisa se recusar com tranquilidade a cooperar com ele.

Boétie entendia que, para o homem se libertar dos governantes autoritários, era necessário, antes de tudo, conseguir sua liberdade interna, obtendo assim o caminho mais seguro para a resistência política. Aliado a isso, o estudo da história seria também muito importante para os homens se livrarem de seus opressores, pois conhecendo exemplos semelhantes no passado, poderiam identificar o padrão em sua própria realidade, o que tornaria mais fácil a rebelião contra os tiranos.

Como aperitivo, seguem alguns trechos da obra que esteve na cabeceira de grandes pensadores dos séculos posteriores:

“Quero para já, se possível, esclarecer tão somente o fato de tantos homens, tantas vilas, cidades e nações suportarem às vezes um tirano que não tem outro poder de prejudicá-los enquanto eles quiserem suportá-lo; que só lhes pode fazer mal enquanto eles preferem aguentá-lo a contrariá-lo”.

“Que nome se deve dar a esta desgraça? Que vício, que triste vício é este: um número infinito de pessoas não a obedecer, mas a servir, não governadas, mas tiranizadas, sem bens, sem pais, sem vida a que possam chamar sua? Suportar a pilhagem, as luxúrias, as crueldades, não de um exército, não de uma horda de bárbaros, contra os quais dariam o sangue e a vida, mas de um só?”

“A liberdade é a única coisa que os homens não desejam; e isso por nenhuma outra razão (julgo eu) senão a de que lhes basta desejá-la para a possuírem; como se recusassem conquistá-la por ela ser tão simples de obter”.

“Ao fazer as partilhas dos dons que nos legou, deu, mais a uns do que a outros, certos dons corporais e espirituais; mas é igualmente certo que não pretendeu pôr-nos neste mundo como em campo fechado, nem deu aos mais fortes e aos mais avisados ordem para, quais salteadores emboscados no mato e armados, dizimarem os mais fracos.”

Irene Rezende é mestre e doutora em História Social e Política pela Universidade de são Paulo (USP) e colaboradora da Casa da Democracia. 

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