Entrevistados afirmam que é função do governo agir para reduzir abismo social, querem saúde e educação gratuitas para todos, defendem maior tributação para os mais ricos e confiam na religião como instrumento para melhorar de vida

Por Patrícia de Matos

A maioria dos brasileiros (86%) acredita que o Brasil só será capaz de progredir quando diminuir o abismo sócio-econômico entre ricos e pobres. Esta e outras conclusões sobre como a população enxerga as desigualdades econômicas, raciais e de gênero no país foram reveladas pela pesquisa “Nós e as desigualdades”, da ONG Oxfam Brasil, encomendada ao Instituto Datafolha e divulgada nesta semana.

O levantamento nacional, que ouviu 2.086 pessoas em 130 cidades no mês de fevereiro, aponta um aumento no número de pessoas que veem o Estado como principal responsável pela garantia dos direitos sociais (84% em 2019, contra 79% em 2017), assim como do apoio à maior tributação dos ricos como forma de financiar políticas sociais (77%, ante 71% em 2017). A maioria acredita também que as condições de gênero (64%, contra 57% em 2017) e de raça (52%, contra 46%) são condicionantes para que mulheres e negros recebam salários menores e tenham menos renda. Confira os principais resultados clicando aqui.

Em contraposição à política econômica defendida e adotada pelo Governo Federal – marcada, por exemplo, pela redução do investimento em políticas sociais e distributivas –, cinco em cada seis brasileiros consideram o Estado responsável pela diminuição das desigualdades (84%). “Há um paradoxo”, diz a diretora executiva da Oxfam Brasil, Kátia Maia. “Talvez esses números sejam uma evidência de que a pauta econômica não esteve presente como deveria na campanha eleitoral do ano passado”.

“Quem elegeu o presidente o fez muito mais por razões morais. O enxugamento do Estado, a redução das políticas sociais e a própria reforma da previdência não estavam presentes em seu discurso. Se estivessem, é possível que ele não tivesse vencido, diz Kátia Maia.

Outro dado relevante trazido pelo levantamento é que mais da metade da população não vê a meritocracia como vetor de mobilidade social: para 58%, uma pessoa de família pobre não tem as mesmas chances profissionais de uma pessoa de família rica. “Não se acredita muito que o esforço pessoal seja o item prioritário para uma vida melhor”, diz Felícia Picanço, coordenadora do Laboratório de Estudos sobre Diferenças, Desigualdades e Estratificação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “São outros os elementos que formam a convicção num futuro mais próspero”, afirma. Quando indagados os fatores para a melhoria de vida, em uma escala de prioridades, 28% apontaram a fé religiosa como primeira resposta, enquanto o estudo foi a primeira resposta de 21% dos entrevistados, e 19% citaram a saúde em primeiro lugar. Maria Lígia Barbosa, socióloga da UFRJ especialista em desigualdades sociais, acredita que a presença mais forte de igrejas evangélicas na vida cotidiana tem forte impacto na percepção geral da população. “Isso porque elas não se detêm às elocubrações abstratas, mas discutem questões concretas da vida das pessoas”, diz.

Com o aumento do índice de desemprego — condição que atinge, hoje, mais de 13 milhões de cidadãos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatístia (IBGE) —, cresceu o percentual dos que apoiam o aumento de impostos para ampliar investimentos em saúde, educação e moradia: de 24% para 31% em dois anos. Por extensão, caiu de 75% para 69% o percentual dos que são contra aumentar impostos. “O senso comum é de que o volume de impostos já é alto o suficiente no Brasil, de modo que o desafio seria alocar melhor esses recursos e combater a fuga de receitas por meio da  corrupção, considerada a maior responsável pela desigualdade por parte expressiva da população”, diz Kátia Maia, da Oxfam.

Por outro lado, perguntados sobre a hipótese de aumento da tributação dos mais ricos para financiar políticas sociais, 77% se disseram a favor. Segundo a Oxfam, o índice revela um sentimento de solidariedade ainda presente na sociedade brasileira, bem como a percepção de que há algo de errado quando a alíquota tributária que incide sobre uma renda mensal de R$ 6 mil é a mesma atribuída a quem ganha supersalários de mais de R$ 100 mil. E quem seriam os mais ricos? Conforme o estudo, 82% dos brasileiros apoiam maior tributação para quem ganha mais de R$ 40 mil por mês, enquanto 81% da população concorda que “o governo deveria diminuir os impostos sobre os produtos e serviços que a população consome e compensar a diferença com o aumento de impostos sobre a renda dos mais ricos.”

A esperança na ascensão social é grande: 70% acreditam que, em cinco anos, pertencerão às classe média ou média alta em 5 anos. No entanto, 57% não acreditam que vai haver uma melhora na desigualdade social brasileira nos próximos 5 anos. Segundo o relatório, esses dados revelam que há um “otimismo pessoal” e, ao mesmo tempo, um “ceticismo social”. Do mesmo modo, 16% da população se autodeclara pobre e ninguém se considera rico, enquanto, segundo as estatísticas do IBGE, o percentual de pobres é de 26,5%, enquanto 3% da população está na chamada classe A.

Percepção X realidade

Felícia Picanço, da UFRJ, diz que é comum haver um abismo entre percepção e realidade. Para ela, essa contradição é mais profunda, estrutural e vem se perpetuando ao longo da história. A compressão da realidade, diz, geralmente está vinculada à experiência do indivíduo, e não ao que “atinge o outro”. O fenômeno leva as pessoas a acreditarem que os ricos são os outros. “Rico é quem está no jatinho. Quem tem certo padrão de consumo acha que a elite são os outros e que, portanto, não somos nós os responsáveis por promover mudanças estruturais”. Para ela, esse fator é importante para entender “a reprodução sistemática das desigualdades e a existência de uma cultura que cria resistência a transformações mais radicais.”

É o que revelam os dados sobre a autopercepção dos entrevistados na pirâmide social: 85% se colocam na metade mais pobre da população, enquanto 53% consideram que os pobres são aqueles que ganham de R$ 701 A R$ 1.000. Considerando o critério adotado pelo Banco Mundial, pobre no Brasil é quem ganha até R$ 400; quem ganha mais de R$ 700 já pode ser considerado de classe média. Segundo esse critério, o Brasil tinha, em 2017, 55 milhões de pobres, ou 26,5% da população segundo o IBGE. Se a percepção da população fosse correta, esse contingente seria de 83 milhões, ou seja, 40% da população brasileira.

Em relação às desigualdades raciais, a pesquisa revela que, para 72%, a cor da pele é empecilho para adquirir um emprego, e 81% acreditam que o fato de ser negro aumenta o risco de abordagem policial. Sobre questões de gênero, 89% das mulheres e 85% dos homens concordam que a mulher não deve só cuidar da casa e dos filhos e 64% confirmam a ideia de que o fato de ser mulher impacta diretamente na renda. “Não seremos capazes de vencer as desigualdades sem atacar fortemente as questões de raça e gênero”, afirma Kátia, da Oxfam.

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