Por Manoela Miklos*

Na noite em que Marielle e Anderson foram brutalmente assassinados, eu estava num restaurante japonês na zona sul do Rio de Janeiro. Rodeada de amigos que eu amo, comendo meus pratos favoritos. A vida parecia doce. Ignorava que, do outro lado da cidade, minha amiga estivesse vivendo seus últimos momentos.

Soube da tragédia por amigos que trocavam mensagens freneticamente em grupos de WhatsApp. Sem entender a gravidade do que acontecera, mas percebendo que algo de gravíssimo se passava, liguei para minha querida companheira de todas as horas Antônia Pellegrino. Ela e o companheiro, o deputado Marcelo Freixo, já estavam no local do crime. Antônia me contou o que sabia. Me levantei, paguei a conta e peguei um taxi. Sentei no banco de trás e não disse nada. O taxista, simpático, me perguntou para onde eu queria ir. Não respondi. Ele perguntou mais uma vez, agora preocupado. Virou-se para trás e repetiu a pergunta pela terceira vez. Eu fui para casa. Atônita.

Não dormi, evidentemente. A TV no mudo mostrava vídeos e fotos da Mari. O telefone tocou toda a noite. Mensagens pipocavam. Pela manhã, me vesti e fui para a Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro. Onde Mari trabalhava, onde a tinha visto pela última vez naquela semana mesmo, dias antes do bárbaro atentado. A equipe da Mari, amigos e parentes estavam na Sala Inglesa, um salão revestido de madeira escura. Tão bonito.

A partir daí, a memória fica truncada. Só lembro de flashes. Tainá de Paula e eu abraçadas. As lágrimas nos rostos das assessoras. Julita Lemgruber em pé num cantinho da sala, consternada. Pedro Abramovay suspirando ao meu lado. A cena do caixão sendo carregado pelos companheiros de partido escadaria acima, na Cinelândia, ficará impressa na minha retina para sempre. Sem que fosse preciso combinar, como se tivéssemos ensaiado um ballet, as mulheres negras presentes deram as mãos e formaram um corredor. Logo atrás, as mulheres brancas, como eu, nos posicionamos, também de mãos dadas. Ao fundo, os homens. Assim, enfileiradas e enfileirados, assistimos a entrada do corpo da Mari na casa legislativa que ela lutou tanto para ocupar.

Eu usava uma saia preta e uma camiseta cinza. Na camiseta, colei adesivos da campanha da Mari que sobraram na minha casa. Junto deles, tive que colar o adesivo que todos recebem ao entrar na Câmara de Vereadores. Nele, lia-se a data – 14 de março de 2018 – e hora em que entrei no edifício. Aliás, lia-se não. Lê-se. Porque eu nunca tive coragem de lavar essa camiseta.

No fim da tarde, uma multidão se reuniu na frente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Ríamos ao lembrar dos tantos atos que organizamos ali junto com a Mari. Chorávamos ao constatar que teríamos de seguir lutando sem ela. Em algum momento, senti que toda energia vital que tinha havia se esvaído. Mal conseguia respirar. O peito apertado. Os olhos vermelhos. Os pés cansados. Andei na contra-mão da multidão. Entrei pela porta, caí no sofá e fiquei ali, no escuro, sem nem acender nenhuma luz.

Me lembro de pensar: mulheres negras protagonistas. Na linha de frente. Atrás delas, mulheres brancas, dispostas a lutar junto de suas companheiras negras num compromisso inabalável com a interseccionalidade. E homens ao fundo, escutando, em paz com o papel de aliados que lhes cabia. A coreografia improvisada que nossos corpos dançaram naquela manhã era prova cabal de que Marielle seria o que hoje é: uma força da natureza, uma presença arraigada dentro de todas e todos, um motivo para seguirmos incansáveis, uma luz que nos guiará sempre no front da luta por direitos. Nossos corpos sabiam o que fazer na manhã de 14 de março de 2018 porque aprenderam com Marielle o ensinamento mais importante: precisamos subverter a lógica dos privilégios. Precisamos garantir o protagonismo dos vulneráveis. Precisamos usar os recursos que temos para construir um novo normal. E temos urgência.

Oxalá saibamos honrar o legado dessa mulher ímpar e consigamos evitar retrocessos nas agendas que lhes eram caras. Oxalá cada passo adiante seja uma reprise dos passos que dançamos naquela manhã.

*Manoela Miklos é doutora em Relações Internacionais, especialista em Direitos Humanos, ativista feminista e fundadora do coletivo Agora É Que São Elas.

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