“Democracia em Risco?” reúne 22 ensaios escritos por intelectuais atentos ao governo Bolsonaro

Por Camilo Vannuchi 

Fascismo. Neofascismo. Autocracia. Obscurantismo. Neototalitarismo. Nacionalismo bélico. Ultraneoliberalismo teocrático. Fundamentalismo de extrema-direita. Difícil rotular o bolsonarismo e, mais difícil ainda, elaborar um prognóstico para um país que, 30 anos após a promulgação da Constituição Federal em vigor, consagrou, nas urnas, um modelo de governo que flerta com todas essas definições sem assumir nenhuma nem romper oficialmente com o regime democrático. O livro Democracia em Risco? (Companhia das Letras, 376 págs., R$ 54,90) pode ser celebrado como um importante esforço neste sentido.

A obra reúne 22 ensaios que, individualmente e em conjunto, refletem com evidente preocupação o atual momento da política brasileira. Os textos são assinados por intelectuais de diferentes áreas e origens, todos comprometidos com a defesa da democracia — e, a despeito do ponto de interrogação grafado no título, claramente desconfortáveis com o risco à democracia representado pelo projeto chancelado nas urnas no último ano. Uns mais, outros menos, é verdade. “Em uma democracia saudável, esse alinhamento das forças democráticas contra Bolsonaro teria sido automático, mas nossa democracia está doente”, afirma o sociólogo Celso Rocha de Barros, referindo-se ao segundo turno de 2018. E arremata: “O desastre aconteceu”. O historiador Boris Fausto discorda. “Ao menos por ora, não há razões para ceder ao catastrofismo”, escreveu no capítulo A queda do foguete (que, aliás, termina com uma oração obstinada: “há razões suficientes para manter uma teimosa esperança”).

O esforço para descrever e analisar não apenas a consagração do mito nas urnas, mas também as primeiras decisões e ações do novo governo começa na própria categorização. Como, afinal, “taguear” o bolsonarismo? “É muito difícil encontrar um nome para esse bicho novo”, afirma o filósofo Ruy Fausto, irmão de Boris Fausto situado dois ou três metros à esquerda dele. “Uma denominação que não me parece ruim, embora tenha a relativa desvantagem de ser um neologismo, é democratura“. 

Aqui e ali, lêem-se pinceladas que, no conjunto, dão forma e cor a essa emergente democratura. “Alguma coisa está fora dos eixos na democracia brasileira”, afirma a historiadora Heloísa Starling, da UFMG, fixando em letras miúdas aquilo que, a essa altura do noticiário, deveria parecer óbvio para todos. Esther Solano, professora de relações internacionais na Unifesp, aponta algumas das avarias que lograram tirar a democracia dos eixos. “Elementos altamente corrosivos para a democracia, como a retórica antissistema e a instrumentalização dos anseios de renovação política, o louvor a uma justiça messiânica, o antipartidarismo, a visão do adversário como inimigo a ser aniquilado, o anti-intelectualismo, foram fundamentais para a vitória de Bolsonaro”, escreve. 

Na percepção do filósofo José Arthur Giannoti, a família Bolsonaro propõe uma cruzada moralista, que tem grandes chances de fracassar uma vez que nem todos os eleitores do presidente compartilham dessa visão moralizante. A socióloga Angela Alonso, do Cebrap, também enxerga o “moralismo hierarquizador” como um dos elementos constitutivos do bolsonarismo. Segundo a autora, esse elemento se somaria ao nacionalismo beligerante e ao antielitismo para formar o tripé ético que busca dar sustentação ao novo regime.  

Angela Alonso esteve no debate de lançamento promovido pela Companhia das Letras e pelo jornal Folha de S.Paulo na última quinta-feira, 14 de fevereiro. Diante de um auditório lotado na livraria Martins Fontes da Avenida Paulista, a autora pôde se aprofundar na descrição do que ela chama de comunidade moral bolsonarista. Segundo ela, Bolsonaro governa com os olhos voltados para essa comunidade moral. São os “brasileiros de bem”, que se opõem ao mal, representado por “petralhas”, “esquerdistas”, vagabundos e todos aqueles cuja orientação sexual diverge da heterossexualidade, entre outros. Para esses, nas palavras de Bolsonaro, “as minorias devem se curvar às maiorias” ou desaparecer. Os militares — cerca de 20% dos ministros — teriam o condão de resgatar a ordem, enquanto a moral cristã orientaria a Nação. Nesse sentido, o uso da força física pode ser providencial. “Vamos fusilar a petralhada”, discursou Bolsonaro em comício no Acre. “Prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí”, afirmou, em entrevista à Playboy. “A comunidade moral bolsonarista anseia por endurecimento na defesa dos cidadãos de bem”, escreve Angela em seu texto. No lançamento, Angela debateu com os também autores Matias Spektor, professor de relações internacionais da FGV, e o antropólogo Ronaldo de Almeida, da Unicamp. 

Sérgio Abranches, André Singer e Gustavo Venturi, Monica de Bolle, João Moreira Salles, Renan Quinalha, Ronaldo Lemos e Daniel Aarão Reis são alguns dos nomes que completam o line up do livro organizado pelo editor Ricardo Teperman. Democracia em Risco? surge com a força de ser um dos primeiros registros sérios e plurais, em livro, de uma historiografia que se projeta vasta e pulsante. Não parece plausível que a democratura bolsonarista ora em formação deixe de ser objeto de estudos e análises de toda sorte — ou de todo azar, conforme o ponto de vista. Trabalhos como este serão fundamentais para que se possa melhor compreender e registrar o espírito dos novos tempos.

Democracia em risco?: 22 ensaios sobre o Brasil hoje
Vários autores
Companhia das Letras
376 páginas
R$ 54,90 (e-book R$ 29,90)

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